Muito já se falou sobre os estragos do furacão Irma. Recentemente, começou a circular um texto de um cubano sobre a saída preventiva e de reconstrução depois que Irma passou pela ilha caribenha. O texto, para quem não leu, está no final deste. Em resumo, Sergio Serrano diz que, em Cuba, “ante o perigo coletivo, o plural é a resposta”, e diz sobre as brigadas de trabalhos que defendem o vizinho, o outro, dos estragos do furacão: abrigos coletivos, estoque comuns de alimentos, medicamentos etc. Cada qual com sua tarefa. Poucos quilômetros dali, em Miami, as prateleiras vazias dos mercados, postos sem gasolinas e bunkers abarrotados são sintomas de uma outra lógica, nada solidária, de encarar o perigo comum.

O cinema de Hollywood cansou de escancarar essas características. Filmes de catástrofes sempre enfatizam a luta do “salve-se quem puder”. Caos nos mercados e nas estradas, briga por suprimentos e por um lugar nos abrigos. Mas não precisamos ir longe, por aqui, muito embora as catástrofes ambientais não encontrem terreno, sofremos com males de magnitude ainda maiores: desigualdade social, salários e empregos precários e serviços públicos de má qualidade são alguns exemplos. E por aqui também nossa saída é individualista. Muros cada vez mais altos criam espécies de “pseudo-espaços-públicos” sem o outro, sem o diferente, verdadeiros bunkers contra problemas comuns. É a Lógica do condomínio que fala Dunker.

A saída encontrada por Cuba sobre a tragédia do furacão Irma é exemplo de uma nova prática, fruto da revolução socialista na ilha, que devemos reconhecer. Claro que qualquer defesa irrestrita de Cuba gera polêmica, e com razão. Onde há liberdades cercadas, sempre haverá minha solidariedade à resistência. Mas há que se reconhecer que eles lidam muito bem com a ideia do comum e nos fornecem uma “cartografia”, para usar termo de Guattari, de uma nova racionalidade.

Como ressaltou Dardot e Laval, a recusa de viver sempre em concorrência com o outro

na prática, só pode valer se forem estabelecidas, com relação aos outros, relações de cooperação, compartilhamento e comunhão. De fato, que sentido teria um distanciamento de si mesmo que não tivesse nenhuma ligação com a prática cooperativa? (…) A invenção de novas formas de vida somente pode ser uma invenção coletiva, devida à multiplicação e à intensificação das contracondutas de cooperação.

É preciso que se estabeleça uma resistência criativa que tenha no comum seu princípio de funcionamento. “Ante o perigo coletivo, o plural é a resposta”. E isso vale tanto em Cuba e seu mais recente desastre pós-Irma, como aqui no Brasil, com o acirramento das desigualdades e muros cada vez mais altos.

por Pedro Veríssimo do portal http://umacascadenoz.cartacapital.com.br

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Abaixo, o texto de Sergio Serrano:

Irma, mulher furiosa, que, com seu andar destruidor, nos dá uma lição de política prática.

Anuncia que vai para Cuba e que daí viajará, como qualquer balseiro, rumo à Flórida para buscar o sonho americano.

Oh, surpresa! O sonho americano consiste num grito que diz “lá vem o Irma, salve-se quem puder”. As pessoas correm ao supermercado para acumular comida até desabastecê-lo totalmente. As pessoas, em seus carros, procedem à evacuação gerando o bloqueio das vias. As pessoas pensam se está em dia o pagamento do seguro.

A população da Flórida foge do Irma. Em sua fuga, a gasolina se esgota e as vias se engarrafam com a quantidade de carros. Em seu fuga, movida por combustível fóssil, garantem que virão mais furacões ainda maiores.
Darwinismo social, sobrevive quem tem.

Em Cuba, pequena ilha bloqueada e solidária, de imediato formam-se as brigadas de trabalho, que são a forma organizada de defender o outro, o vizinho, o irmão, o desconhecido. Uns põem a comida e os medicamentos de todos a salvo; outros se ocupam de lhe fazer manutenção do saneamento básico para mitigar as inundações; podam-se as árvores para que os ramos não sejam projéteis assassinos; ocupam-se de levar as pessoas a refúgios e instalações militares seguras. Ante o perigo coletivo, o plural é a resposta. A ira do Irma encontra um povo, por amor e por dever reunido.

Antes de morrer, Irma saberá que sua ira é inútil quando há um muro de corações que se juntam.

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