Pandemia deixou sem renda 30% dos músicos, diz pesquisa; 56% não receberam por lives

Na madrugada da última quinta-feira, o cantor e compositor mineiro Bemti aproveitou um desabafo do youtuber Felipe Neto sobre um apagão de duas horas do YouTube — que supostamente lhe gerou um prejuízo de R$ 17,7 mil reais — para também tornar público o seu drama no Twitter: “Eu tô sem casa há vários meses, quicando de um lugar pro outro, e com perspectiva de conseguir pagar aluguel de novo só ano que vem. Bizarro”. Tocado pela história, Felipe aproveitou sua audiência de 12,6 milhões de seguidores para divulgar o trabalho de Bemti.

O cantor, que lança o primeiro single de seu novo álbum no próximo dia 26, sabe que poucos têm a sorte que ele teve de uma alavancada inesperada em seu trabalho no meio da pandemia. Ele é um dos músicos que participaram da pesquisa inédita “Músicos e pandemia”, organizada pela União Brasileira de Compositores (UBC) em parceria com a ESPM.

O estudo traduz em números e dados uma percepção óbvia daqueles que acompanham o mercado: 86% dos profissionais da música tiveram perdas durante a pandemia de Covid-19, que chegou ao seu oitavo mês no Brasil. Pior: 30% dos entrevistados disseram ter perdido toda a sua renda por conta da crise sanitária que atingiu em cheio a cultura, cancelando shows e festivais, a principal fonte de sobrevivência dos músicos.

No caso de Bemti, a ajuda de Felipe Neto foi além da divulgação: o youtuber fez uma doação financeira para o músico. “Ninguém deveria passar pelo o que você está passando, considere um bônus pelas boas músicas que agora terei pra ouvir”, disse Neto.

— Foi um desabafo genuíno. Estou nessa situação desde março, sem renda dos shows, e tive que arcar com um prejuízo de uma turnê que faria em Portugal em maio. Entrei no modo sobrevivência, dependendo dos amigos — conta Bemti, que não revela o valor doado por Felipe, mas comemora que aquela quinta-feira tenha sido seu melhor dia em reproduções no streaming. — No começo, fiquei com medo da visibilidade, por ser um artista independente gay tocando viola caipira com música pop. Mas recebi muitos comentários legais, elogiosos.

Para o diretor-executivo da UBC, Marcelo Castello Branco, a pesquisa que ouviu 883 artistas ligados à entidade mostra “um corte preciso da realidade”:

— Principalmente para a comunidade artística mais jovem e frágil, por não terem tanta estrada e um catálogo de sucessos que permita atrair o interesse de marcas e iniciativas de resgate comercial.

Outros dados:

85% dos compositores entrevistados são homens; 52% estão na faixa de 31 a 50 anos; 29% têm ensino médio e 28%, superior completo.

56% deles trabalham unicamente com música. Também 56% disseram não ter tido qualquer renda de apresentações ao vivo durante a pandemia.

83% dos músicos afirmaram que não pretendem abandonar suas carreiras, apesar da queda de rendimento.

A associação lançou em abril o fundo “Juntos pela música”, em parceria com o Spotify, que conseguiu captar cerca de R$ 1,8 milhões para ajudar 1.100 compositores por quatro meses consecutivos.

— Seguimos atentos a todos os movimentos solidários de mercado. O Google acabou de fazer outra doação. Mas o que todos precisam o quanto antes é poder voltar ao trabalho, guardando todos os cuidados e protocolos deste momento raro — opina Castello Branco.

A crise afeta mais diretamente músicos de médio e pequeno porte, que dependem dos cachês de shows para sobrevivência, uma vez que os royalties advindos do streaming são irrisórios. São eles, também, que passam longe das propostas por lives patrocinadas, que têm permitido um ano menos apertado para uma minoria da classe — 56% não receberam nada por shows nesse período.

Uns voltam, outros não

O cantor e compositor carioca Rodrigo Lampreia, por exemplo, tem 80% de sua renda dependente do ao vivo. Ele se apegou à liberação dos eventos na cidade para retornar com a festa “Roda do Lampra” e fechou shows para a virada do ano.

— Claro que a gente fica preocupado, mas é necessário que a gente volte, desde que sigamos todos os protocolos e recomendações dos órgãos públicos. Para mim, essa volta é natural — opina.

Outros, porém, não se sentem seguros para voltar a uma rotina profissional externa, e se viram como podem. É o caso da banda de rock Canto Cego, que surgiu no Complexo da Maré e já esteve em grandes festivais, como o suíço Montreux, em 2015, e, mais recentemente, no Palco Favela do Rock in Rio, ano passado. Eles também englobam os 30% de profissionais que tiveram a renda cortada.

— Não existe renda pra gente — desabafa a cantora e compositora Roberta Dittz, que tem sobrevivido com trabalhos como produtora de vídeos freelancer. — O que estamos tentando fazer é manter nossas redes sociais ativas, lançando vídeos semanais no YouTube, mas isso não significa que estamos conseguindo rentabilizar. O show é onde nosso público cresce, tivemos que dar muitos passos pra trás. Mas quase todo mundo está vivendo um momento difícil, não tem muito pra onde correr. Sempre nos reinventamos, sendo uma banda independente, mas dessa vez está um pouco mais difícil.

Apesar dos passos para trás, a Canto Cego faz número em outro dado um pouco mais esperançoso do estudo da UBC: apesar da queda de rendimentos, 83% dos músicos afirmaram que não pretendem abandonar suas carreiras.

— O momento é de seguir. Somos muito jovens para desistir — justifica Roberta.

Fonte: O Globo

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